segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Um melhor presente

- Escolhe a tua estrela favorita - disse ele naquela noite. Ele disse que eu podia ficar com ela pra mim. Ele disse que era o meu presente de Natal.
- Você não pode me dar uma estrela! - falei. - Ninguém é dono de uma estrela.
- É isso aí - disse ele. - Nenhuma outra pessoa tem uma estrela. Basta você declarar que tem antes dos outros, que nem aquele carcamano do Cristóvão Colombo, que declarou que a América era da rainha Isabel. Declarar que uma estrela é tua tem a mesma lógica.
Pensei bem e cheguei à conclusão que o papai estava certo. Ele sempre descobria umas coisas assim.
Levantei os olhos, olhei as estrelas e tentei decidir qual era a melhor de todas. Dava pra ver centenas, talvez milhares ou, até, milhões, brilhando no céu claro do deserto. Quanto mais tempo você olhava, mais os olhos se acostumavam ao escuro, mais estrelas você enxergava, camada por camada tornando-se visível. Havia uma em particular, a oeste, sobre as montanhas, mas baixa no céu, que brilhava com mais força do que todas as outras.
- Quero aquela - falei.
Papai sorriu.
- Aquele é Vênus - disse ele. - Vênus é apenas um planeta bem chinfrim se comparado às estrelas de verdade. Ele parece maior e mais brilhante porque está muito mais perto do que as estrelas. O pobrezinho de Vênus nem produz sua própria luz. É iluminado, não luminoso, só brilha porque reflete a luz. - Ele me explicou que os planetas brilhavam porque a sua luz pulsava.
- Gosto dele mesmo assim - falei. Eu já admirava Vênus, mesmo antes daquele Natal. Dava pra vê-lo já nas horas iniciais da noite, cintilando no horizonte, a oeste. E, se você levantasse cedo, ainda podia vê-lo de manhã, depois que todas as estrelas já tinham desaparecido.
- Ora bolas - disse papai. - É Natal. Você pode ter um planeta se quiser.
E ele me deu Vênus.
Vênus não tinha luas nem satélites, nem sequer um campo magnético, mas ele tinha uma atmosfera meio que parecida com a da Terra, só que era extremamente quente - uns 260°C ou mais.
- Por isso, quando o sol começar a se apagar e a Terra congelar, todo mundo vai querer mudar pra Vênus, para ficar no quentinho. E eles vão ter que pedir permissão para os seus descendentes primeiro - alegou papai.
Rimos de todas as crianças que acreditavam na lenda do Papai Noel, e só ganhavam um monte de brinquedos baratos - e de plástico - de presente.
- Daqui a muitos anos, quando a porcaria que eles ganharam estiver quebrada e a tiverem esquecido toda - disse ele -, vocês ainda terão as suas estrelas.


Jeannette Walls,
O Castelo de Vidro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Um disfarce, um vestígio.

Ás vezes, toda aquela alegria que eu acreditava ser inteira, desmorona. Quase sempre é assim. Acredite, o meu maior defeito é pensar nos outros e esquecer de mim. Pensar no amor que tenho pelos outros e esquecer o amor que tenho por mim mesma, se é que ele existe. O que eu mais tenho buscado é amor-próprio, mas ainda não encontro vestígios em mim. Quero me aproximar cada vez mais dos meus amigos, quero poder compartilhar com eles a parte de mim que ninguém encontrou até hoje, mas isso está um pouco difícil. É uma pena todos esses desencontros que a vida causou, mas infelizmente ainda não tenho poderes para concertá-los. Parece que vai ser sempre assim, eu e as estrelas, na esperança de um dia brilhar mais. O que me ajuda? As palavras. Sempre.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Que nem maré

A saudade bateu
Foi que nem maré
Quando vem de repente
De tarde, invade
E transborda esse bem me quer
A saudade é que nem maré ♪